Sexta-feira, Setembro 23, 2011

Check

Minha cabeça anda tão maluca que tenho feito checklists para lembrar das checklists e ter certeza que nada de nenhuma checklist seja esquecido ou unchecked.


Segunda-feira, Setembro 12, 2011

Amor

Não é a toa que todas as músicas, todos os filmes, todas as coisas falam de amor.
Todo mundo que amar e ser amado.
Amor traz sentido à falta de sentido da vida.

Retórica

Bons tempos de Nelson Rodrigues.
Não vivi, mas daria tudo para ter vivido a época em que televisão era sonho de uma odisséia futurística e transmissão ao vivo era piada de mau gosto.
Tempo em que o jornal da segunda-feira era o mais esperado, para ler a cobertura do jogo de domingo e saber quem foi craque, quem foi xingado, se o juíz roubou ou se o goleiro frangou.
Bons tempos em que a retórica mudava partida a partida, drible a drible, sobe e desce desconcertante dos times da tabela.
Hoje, a retórica é desgastante, repetitiva, vazia e lacônica.
Experimente discutir a partida de forma singular. Experimente comentar a jogada, a estratégia, o perna de pau. Experimente aclamar um adversário por um grande feito ou criticar um craque por seu baixo desempenho. A resposta será sempre a mesma, mudando talvez os predicativos: "ah, quem é trimundial??" / "Ah, não vejo ninguém na minha frente" / "Bah, quem tem o maior número de torcedores filiados?" / "Quem tem Libertadores?"...
Passa ano, sai ano e continua impossível conversar sobre futebol.
Porque o futebol não é mais a graça da partida. Não é mais a zueira da segunda de manhã, pelo timão vencido pelo timinho, futebol não é mais aquela aposta gostosa que você se envergonha mas gosta de pagar.
Fuebol é uma retórica burocrática, vazia e até violenta, em que prevalece o discurso do "mas quem tem mais título?".
Nada contra títulos. Adoro títulos. E não, isso não é discurso de perdedor.
Isso é uma desesperada aclamação pela volta dos bons papos de futebol no bar, em que a graça era a partida em si, o jogador em si, a torcida em si. Enfim, tempos de futebol que pelo jeito não voltam mais.
Daí minha falta de vontade eterna de falar sobre o assunto. Pois sempre, sempre a resposta vai ser: mas e quem é tri-mundial?! Ah, faça-me um favor, falemos de título no final do campeonato! Enquanto isso, vamos saborear as partidas, as zebras, os sortudos e as boas jogadas.

Quinta-feira, Setembro 01, 2011

Dia da Bailarina

Eu não curto muito essa coisa de dia para isso e dia para aquilo. Acho mesmo que todo dia é dia de qualquer coisa que você queira comemorar. Mas entendo e acho justo que alguns rituais sejam criados em função de dias especiais e que marcaram a história.
Mas, sabe quando o dia realmente tem a ver com você e você fica feliz e aí desencana do fato de nem gostar muito assim de dias para isso e dias para aquilo!
Hoje é dia da bailarina e vamos comemorar!
Tá bom, por acaso vamos comemorar bem neste dia, mas o fato é que hoje tem Confrarina e 10 bailarinas ensandecidas vão se encontrar, para se matar de comer, beber e chorar de rir. Ah, claro, e deitar e rolar no novo tapete da bailarina anfitriã.
Não sei direito porque hoje é o Dia da Bailarina, afinal elas nunca se juntaram para queimar as torturantes sapatilhas de pontas, ou fazer greve contra os puxados exercícios de resistência e flexibilidade. Talvez porque bailarina não reclame muito e goste da dor. É fato, para ser bailarina TEM que gostar e se adaptar à dor física, porque ela vai te perseguir pra sempre. É algo meio masoquista, mas é um bom masoquismo, masoquismo que persegue limites que devem ser quebrados, custe a lágrima que custar.
Então, já que a gente não reclama, não queima os objetos de tortura e não faz greve, merecemos um dia só para nós!
Pena que nem todas as bailarinas tenham Confrarinas como nós.
São rituais fechados e intensos que nós adoramos e esperamos ansiosamente por cada edição.
As reuniões itinerantes já visitaram quase todas as casas das afiliadas. Os cardápios sempre riquíssimos em sabor, cores, sensações e calorias. As conversas todas na base do alto timbre de voz de todas as bailarinas que resolvem falar ao mesmo tempo, sobre os mais diversos assuntos mundiais, principalmente a vida pessoal, sexual e alheia! Claro, tudo isso regado a muito álcool e doce!
Já tivemos a Confrarina mexicana, árabe, italiana. Já tivemos a de inverno, com fondues variados, a de verão na Frutaria e hoje é a americana, com dezenas de waffles doces, salgados, entradinhas e postrezinhos.
É pra se esbaldar.
E, a cada Confrarina, novas fases de vida são comemoradas, compartilhadas ou digeridas. Já passamos por tantas coisas juntas. Separações, perdas, mudanças totais de vida, novo apartamento, novos cursos, novos empreendimentos!
Sempre juntas, sempre unidas.
Um brinde ao dia das bailarinas.
Dois brindes às bailarinas que fazem parte da minha vida.

Terça-feira, Agosto 09, 2011

Sexo alheio

Sexo é instintivo, é animal, é fisiológico, é irracional.
Sexo é relaxante, é antioxidante, é apaixonante, é irritante.
O sexo alheio me irrita!
O sexo alheio me persegue!
Eu devo ter algum tipo de energia magnética [como bem disse minha Dona Astróloga], mas não sabia ela ou não quis me revelar que minha força magnética atrai o sexo dos outros.
Tudo começou quando eu era adolescente, uns 14 anos. Tomei muito sol no Guarujá e fiquei com ensolação, além do corpo ter ficado praticamente roxo e cheio de bolhas [foi a última vez que tomei sol, hoje gosto de permanecer bem branquinha].
Depois do pior banho da minha vida, passei oitenta vezes pelo corpo a melhor receita de família que já pude experimentar: hipoglos com vaselina [misturado formando um creminho leve e fino, ótimo para uma pessoa completamente assada como eu].
Eu dormiria na beliche de cima, pois havia outras pessoas no quarto. Uma vez deitada, só conseguiria levantar de manhã, já que por causa das queimaduras, eu não podia me mexer.
Um casal apaixonado também dormia no quarto e na cama debaixo da minha beliche. E eles começaram a se apaixonar mais e mais, até que acabaram se amando, até que eu acabei no embalo da beliche junto com eles, olhando para o teto, toda assada e sem saber o que fazer, já que eu não podia simplesmente descer.
Começou aí minha sina.
Ano novo da posse do primeiro mandato de Lula. Quinze amigos em Ilha Comprida [também não sei como paramos neste fim de mundo]. Reveillon farto em comida, bebida e Natasha, vodka tridestilada diretamente do inferno. Meu então namorado brigou comigo porque ele se perdeu na praia na hora dos fogos [sim, ele se perdeu de 15 pessoas e, claro, a culpa era toda minha - ainda mais numa praia vazia como aquela]. Depois da santa ceia, de bico, e bêbada, fui para o quarto coletivo, onde dormíamos em 10, aproximadamente. Eis que outro casal apaixonado entra, deita em uma cama [pelo menos não era minha beliche, eu estava protegida dos balanços no colchão do chão] e começam a sair do ano que vai e a entrar no ano que vem. E eu lá, revivendo meu trauma de assaduras no Guarujá.
Passados anos e anos, sou surpreendida pela vida e vou morar em Alphaville devido a um trabalho. Procurei no Google meus colegas de apartamento e então, começamos a dividir nossa vida [menos o banheiro, que graças ao bom Jah eu tinha um só pra mim]. Solitária, quase deprimida, pensando porque diabo eu estava em Alphaville mesmo, deitada na minha cama box com cheiro de cola comprada nas Casas Bahia, começo a escutar barulhos, ranhidos, bate parede... Enfim, eu entendi porque o dry wall é tão maldito, além de impossibilitar o uso de muitos pregos e quadros. Digamos que a acústica do dry wall favorece, muito, a sua audição. E então, eu convivi mais oito meses com o sexo alheio.
Cansada, quebrada e cheia de hematomas, semana passada tomo meu banho renovador de energias e despenco na minha cama de casal dos deuses, com meus travesseiro de plumas e meu edredom de silicone que imita plumas [ele imita maravilhosamente bem], ligo a TV e penso o quanto eu mereço esse ninho de descanso. Até que começo a escutar coisas. Penso que podem ser vozes da minha cabeça, meu inconsciente dizendo que tanto tempo sozinha pode trazer danos para os meus parafusos, que devem estar se oxidando e enferrujando.
Não, não eram vozes dentro da minha cabeça. Eram os berros da nova vizinha do 94, que dorme [não ela não dorme] no quarto de cima, que transa bastante, principalmente segunda-feira, meia noite.
E lá estava eu, em plena segundona, regulando meu despertador para às 5h40, enquanto meus novos vizinhos se comiam em cima da minha cabeça.
Em uma semana eles se comeram quatro vezes, pelo menos nos momentos em que eu estava no meu ex-ninho-do-descanso. Ontem, mais uma segundona após Tela Quente, desligo a TV, entro no primeiro estágio de sono, até que escuto um barulho terrível e eu mal podia discernir se fazia parte do meu sono ou do ambiente. Até que ela berrou, e eu entendi que era do quarto acima. A cama deles definitivamente não é boa. E ela definitivamente tem cordas vocais bem fortes e trabalhadas. E eu demorei horas para pegar no sono novamente.
Essa é a cruz que eu carrego. Eu chamo sexo... Chamo o sexo alheio!

Os Astros

Eu fui a uma astróloga.
Fui convicta em pagar e ouvir.
Fui com os olhos cheios de respeito e curiosidade.
Quem me conhece sabe que este é um grande passo para meu ceticismo. E foi mesmo.
Acho que o tempo e a idade estão me afrouxando. Alguns pilares meus estão ficando mais flexíveis e eu estou gostando disso.
A Dona Astróloga me pegou de jeito. Mal deixou eu sentar e começou a falar de mim. Embasbacada, sentei sem querer transparecer que ela já havia me conquistado.
Enquanto ela falava, pensava o quanto eu interagiria, o quanto daria pistas... Passados três minutos, já nem me lembrava mais que estava preocupada com isso. Meus olhos enchiam de lágrimas e secavam, assim, sem controle, mas sem cair!
Dona Astróloga falou coisas sobre mim que só eu sei quietinha ali, quando vou dormir, quando estou no carro ou quando me permito me entender.
É impressionante porque os detalhes de personalidade e atitude transcendem os simples adjetivos como: inteligente, dedicada, blá blá que todo mundo gosta de ouvir. Ela ilustra, dá exemplos em situações que são muito, mas muito parecidas com as que você viveu e te mostra como escolheu passar por elas e como você se sentiu.
Dona Astróloga utiliza muitos recursos. Mapa astral, leitura do corpo, numerologia e cartas.
O papel dela não é ler o futuro. O papel dela é ler você, de cabo a rabo, e lhe fazer se enxergar.
É claro que ela não resiste e depois de me conquistar falando coisas sobre meu passado, sobre meu pai e minha mãe, ela sabe que já está confortável para arriscar uns palpites.
Foram dois apenas. Um sobre minha mãe e um sobre mim. Gostei de ambos!
Uma hora de consulta. Uma hora com a Dona Astróloga e foi quase como se tudo tivesse se encaixado de novo. Ansiedade em seu lugar, expectativas em seu lugar, críticas em seu lugar... E até a insônia passou. Voltei a dormir todos os dias e bem. E lá se vão 20 dias dormindo.
Não sei explicar exatamente como Dona Astróloga me deixou assim mais serena.
Acho que é a delícia e a ansiedade de ouvir alguém dizer "calma, vai ficar tudo bem. Vai dar tudo certo!"
Parece bobeira. Mas de repente fica tão claro que tudo pode ser mais calmo, mais leve, mais gostoso, menos doído. De repente tudo faz um pouco mais de sentido!

Domingo, Julho 24, 2011

Levi

Cada vez que tenho coragem de atravessar a pista para o outro lado do palco, me embaralhando e esbarrando na multidão, para chegar ao então sonhado banheiro do StudioSP, tenho uma certeza única: é sempre uma experiência indescritível fazer xixi ali.
Não, não me refiro às privadas respingadas, ao papel higiênico de folha [lixa] única ou a fila repleta de mulheres por um tris. Acontece que ali, aquele banheiro é mágico.
O Studio tem um dom inusitado de reunir pessoas diferentes, abertas e simpáticas. E aquele banheiro feminino é um lugar que estranhamente somos bem acolhidas.
Neste sábado foi dia de Levi.
Levi era o nome do cara que supostamente queria me conhecer. Mas que, no fim, virou o nome da história que uma simpática malandra jogou pra cima de mim, com um objetivo nobre!
Na fila, umas seis ou sete mulheres na minha frente. Ao meu lado, uma amiga. Nós, fofocando, claro, ao som de Miranda, que havia dado um break no repertório da Amy e estava nos embalando com outras cantigas espetaculares.
A moça entra, olha para a fila que se formava atrás de mim, olha nos meus olhos e diz, chamando atenção de todas: Você!
Eu?
Você! A moça que o Levi se encantou!...
Levi... Quem?
O banheiro todo se volta para nós.
Sim, você passou, o Levi me cutucou e disse: É ela!
E Levi? Conte mais do Levi!
Ah, ele é muito meu amigo. Simpático, inteligente, engraçado... E bonito! Você precisa conhecer.
As descargas sendo puxadas. E a amiga do Levi me xavecando!
Eis que a próxima da fila se vira e diz: Eu conheço o Levi!
Embasbacada, cobro da amiga essa traição sem cabimento! O meu Levi por aí, na boca do povo no banheiro!
Não, não, ela não conhece o Levi de verdade. E o banheiro ri!
Rio, indignada, por já estar sendo trocada por duas meninas de 15, idade que a intrometida parecia ter.
E mais descargas são puxadas.
Até que chega nossa vez.
E a amiga do Levi queria levar a nossa sagrada hora do banheiro.
Eu e minha amiga já sabíamos... Levi era a melhor desculpa de todas para furar a fila do xixi. Enquanto nos contava as maravilhas do moço invisível, passava por todas as meninas plantadas à espera do sonhado vaso.
Ela conseguiu. Furou!
Mas atrás de nós!
E o Levi? Quem liga pro Levi?! O que importa é que aquele banheiro é lugar de gente incrível!

Sexta-feira, Julho 15, 2011

Variando!

Não pensem que é fácil fazer uma variação de ballet de repertório.
Aquelas bailarinas lindas que dançam como se não fizessem esforço algum, fazem isso há anos e anos! E só as muito, muito boas são escolhidas para um ballet de repertório.

Pois bem, nós que já somos velhinhas e não desistimos nunca, tivemos seis horas de curso de férias para estudar o ballet Gisele, a camponesa que morre de desgosto por ter sido enganada por seu amor.
Nossa missão era aprender uma variação de 1min 10 seg, chamada Peasant Pas Variation, de uma camponesa donzela sem nome que carinhosamente apelidamos de Mary.
Hoje, na última aula, acho que cumpri bem a missão.
Claro que se eu tivesse mais alguns meses, teria que melhorar 200%. Mas é o que temos pra hoje, em poucas horas de ensaio!!
Me sinto feliz e realizada, mesmo. É impossível descrever o que foi a primeira tentativa de dançar essa coreografia!

A variação da dona Pâmela:


E a variação feita por uma bailarina de verdade!!

Sábado, Julho 02, 2011

Resgate da alma

Cada hematoma cuidado, cada bolha estourada e cada unha amassada pela dança me ajudam a descobrir o que há de verdadeiro dentro de mim.
Tratar as escoriações não me traz nenhuma dor física ou nenhum arrependimento.
Quase me dão orgulho de me permitir, de me desvendar.
Reaprendi a não me repreender. Estou amolecendo.
A moldura dura e ríspida, lapidada pela vida, pelo mercado, pelo mundo, está se esburacando e aos poucos deixando a luz que vem de dentro atravessar.
Agora entendo anos de angústia. Anos de auto-ignorância, de auto-esconderijo e de auto-cobrança.
Eu me escondia de mim.
Sonhei com um jornalismo libertador, pelo qual nunca salvaria ao mundo, mas salvaria a mim. Canalizaria nele ideias, sentimentos, sensibilidades e revoltas. Meu meio de comunicação com o mundo.
Mas o romantismo do jornalismo é balela. Dominado pelo vazio, o fordismo e os interesses desinteressantes. Hoje tenho quase aversão ao jornais, às revistas, às notícias, a esse mundo que me descrevem todos os dias e que pra mim não tem significado.
Anos catequizada em megacorporações fecharam meus poros, minha capacidade de exalar. Apenas absorvia as pressões, as desgraças, as crises, os resultados, a necessidade de mais resultados, os coachings, os feedbacks, as metas, o gesso.
Meu incômodo era nítido. Nítida não era a origem.
Hoje, eu entendo claramente a origem.
Finalmente, posso devolver para o mundo o que há dentro de mim. Finalmente, consigo olhar novamente para dentro de mim.
São dois anos dedicados a mim. Começou quase que sem querer, muito menos com método, ritmo ou cobranças.
Aos poucos já reconhecia risadas perdidas, descobria movimentos nunca tentados, aos poucos me olhava nos olhos procurando o que eles realmente refletiam.
E aí entendi na pele o que é arte.
Arte é a capacidade de expressar o melhor e o pior de dentro de nós para a leitura e a emoção do outro, ou de ninguém, apenas de si.
Eu não busco ainda emocionar a ninguém. Ainda. Por enquanto, busco me emocionar, me encontrar, me persuadir. Muitas vezes choro, porque um movimento me toca. Uma conquista me incendeia ou um desespero me abala.
Porque ali, naquela sala, em meio a barras vermelhas, eu sou simplesmente eu. O que há de mais puro, mais desnudo e mais essencial de mim, minha alma.
Alma que eu nem sabia que tinha. Desprezada por tantos anos, por uma pessoa que se imaginava corpo e mente e nada mais. Minh'alma desprezada gritava em mim. E hoje grita de catarse. Grita por sua existência permitida. Grita por mal saber o que fazer com tal liberdade.
Liberta, minh'alma quer voar, se sentir cada dia mais artista, se entender. Buscar o que esse mundo tão dolorido pode oferecer de colorido.
Até que um dia, achada de si, cheia de si, possa emocionar alguém, dizendo a esse alguém: permita-se também, liberte sua alma, abra seus poros, ilumine-se de dentro pra fora, sofra seus sentimentos, sinta seus sentimentos. Sinta, viva e desespere. Desespere de alegria, de alegria da alma.

Segunda-feira, Junho 20, 2011

Des-senso comum

De tempos em tempos, eu me assusto com as correntes preconceituosas, reacionárias, conservadoras e tradicionalistas que aparecem em emails e facebooks da vida. O meu susto inicial não se trata da mensagem em si, mas o quanto ela pode ser disseminada sem o mínimo de critério daqueles que acham bonito protestar via internet, mas não têm sequer senso crítico para entender o que realmente está escrito ali.
Às vezes chego a me decepcionar com algumas pessoas que eu conheço e preferiria nem ter facebook só para não acompanhar aberrações que elas compartilham.
Uma dessas correntes que me incomodam muito é essa aqui:

"Vai transar? O governo dá camisinha. Já transou? O governo dá a pílula do dia seguinte. Teve filho? O governo dá o Bolsa Família. RESOLVEU VIRAR BANDIDO E FOI PRESO? O GOVERNO DÁ O AUXÍLIO RECLUSÃO. Todo presidiário com filhos tem direito a uma bolsa de R$798,30 "por filho". Experimenta estudar e andar na linha pra ver o que é que te acontece! Se vc é brasileiro passe adiante!"

O texto, pra mim, é de uma ignorância sem tamanho.
Primeiro porque é total função do governo zelar e prover bem-estar ao cidadão, bem como acesso a saúde, prevenção, fonte de renda, moradia, segurança, dentre outras mil coisas que são responsabilidade do Estado e eu não abro mão!
Analisando a mensagem em questão:

1) "Vai transar? O governo dá camisinha. Já transou? O governo dá pílula do dia seguinte"- Eu, como cidadã, tenho especial orgulho desta frase. O programa Anti DST/Aids do Brasil é um dos melhores do mundo e serve de modelo para diversos países, mesmo os desenvolvidos. Para os ignorantes de plantão, faz parte sim da agenda do Ministério da Saúde prover um programa que conscientize a população sobre sexo seguro e que auxilie em um melhor planejamento familiar, diminuindo a propagação de DSTs no país - que ainda cresce entre adolescentes e mulheres casadas - mas que diminuiu e muito seus índices no país graças às políticas públicas do governo; além de ajudar famílias mais pobres a não ter trezentos filhos sem poder criá-los. Logo, dar camisinhas, anticoncepcionais, pílulas do dia seguinte é, pra mim, um avanço sem tamanho neste país.

2) "Teve filho? O governo dá bolsa família" - em que país você vive, cara pálida? Na Suécia? Na Finlândia? Bom, eu vivo no Brasil e CONHEÇO o Brasil, diferentemente do cretino ignorante que escreveu essa aberração. Minha família veio do interior do Ceará, meus avós com seus 16 filhos vieram ao Sudeste em busca de uma vida digna, nos anos 70. Sim, encontraram, e criaram a mim com senso suficiente para saber que neste país as pessoas não têm as mesmas oportunidades, não têm acesso aos aspectos básicos para manter uma vida minimamente saudável, como por exemplo acesso a saneamento básico, alimentação e educação. Talvez o ser intelectualóide que escreveu essa frase mal saiba que milhares de pessoas no Brasil morrem de diarreia! E muito menos imagina que nos últimos anos 20 milhões de brasileiros saíram da miséria e hoje estão inseridos nas classes E e D. Talvez este cidadão não se importe com isso porque não sabe o que é miséria. Durante quatro anos eu dei aulas de português e matemática na favela de Paraisópolis, a segunda maior de São Paulo. A pobreza esmagadora e assustadora ainda não era o retrato da miséria no Brasil, que sim, é muito pior do que a realidade da favela da cidade grande. A miséria do sertão, do interior do Brasil, de norte e nordeste é aquela em que as pessoas fervem pedregulho pra comer. Eu APOIO que essas pessoas recebam sim o Bolsa Família, que aliás, deveria prover muito mais do que só dinheiro. Mas já é um ótimo começo.

3) "RESOLVEU VIRAR BANDIDO E FOI PRESO? O GOVERNO DÁ O AUXÍLIO RECLUSÃO. Todo presidiário com filhos tem direito a uma bolsa de R$798,30 por filho" - Essa aqui é para gerar revolta total na população internética! Acontece que ela é enganosa. Primeiro, porque não é TODO preso que tem auxílio. Menos de 5% da população carcerária tem direito. Isso porque, para que a família receba o auxílio - que aliás não é fixo e não é por filho, existe uma conta por trás - o preso deveria contribuir mensalmente e em dia com a Previdência Social antes de ser preso, não pode receber qualquer outro tipo de benefício do governo, incluindo seguro desemprego. Logo, o que a família dele recebe vem da sua própria contribuição, é calculado de acordo com o quanto o preso já contribuiu, além de outros fatores que têm a ver com a economia do estado. Se uma família tem um pai preso, seja lá pelo motivo que for, a esposa e os filhos têm sim direito de receber apoio - ainda mais se isso sai do bolso deles. Além do que, o objetivo é que eles também, no desespero, não virem criminosos. Assim, o filho consegue ter o mínimo para se tornar um cidadão de bem, sem cair na desgraça do pai. O valor talvez seja um pouco alto, poderia estar mais próximo do salário mínimo, mas, novamente, como não e fixo, não tenho condições claras de julgar. O fato é que não bastar ir preso para a família ganhar algo em cima disso.

4) "Experimenta estudar e andar na linha pra ver o que é que te acontece! Se vc é brasileiro passe adiante" - Essa é, certamente, a pior de todas as frases. Por acaso, quem estuda não transa? Quem estuda não usa camisinha? Quem estuda não precisa de planejamento familiar? E pobre? Pobre, então, não estuda? Recebe bolsa família para ficar tomando sol na piscina? Pobre não tem que ter acesso a políticas sociais ou de saúde pública? E o que diabo é "andar na linha"? Andar na linha é nascer branco, de classe média, fazer uma faculdade particular, usar drogas nos jogos universitários, dirigir seu carro bêbado depois do bar de sexta-feira? Quem "anda na linha" não precisa de nenhuma política social do governo? Usar camisinha cedida pelo Ministério da Saúde não é andar na linha?
Façam-me um favor: justamente porque eu sou brasileira, não me enviem esses absurdos. Não tentem me emburrecer, não tentem me alienar, não tentem me tucanar.
Não preciso de des-serviços sociais, não preciso de des-senso comum.

Aproveito para pedir desculpas a algumas pessoas que lêem o meu blog. Não é do meu estilo publicar textos com palavras de baixo calão ou até com um perfil tão revoltado. Mas a ignorância coletiva me tira do sério.

Segunda-feira, Junho 13, 2011

Antônio

Hoje é dia de Antônio.
Dia de Antônio Santo.
Dia de Antônio pagão.
Dia de Antônio casamenteiro.
Dia de Antônio fanfarrão.
Dia de Antônio que se foi.
Dia de Antônio que se chega.
Dia de qualquer Antônio.
Dia de Antônio meu.
Parabéns para meu Antônio, meu Chu, meu Tonhão, meu Pai.
Que seus 62 anos de hoje ainda valham mais de 62 anos na minha memória e na minha história.
Pois como diria mestre Camões, em os Lusíadas, saudade é a dor de quem fica.

Quarta-feira, Junho 08, 2011

25 anos

Segunda-feira, dia 13, é aniversário do meu pai. Faria 62 anos se estivesse vivo.
No dia seguinte, dia 14, é aniversário de sua morte. Exatos 25 anos.
É bem assustador pensar que já são 25 anos. Tenho lembranças vívidas, claras, gritantes de minhas respostas para amigos do colégio, ou pessoas que me perguntavam do meu pai e eu dizia que ele já havia falecido, e completava: faz 7 anos, 8 anos.
25 anos é coisa demais, é tempo demais.
Já é quase como se toda sua história já tivesse sido apagada e enterrada. Se as minhas lembranças são quase nulas, as das pessoas que conviveram com ele estão se apagando, algumas sendo enterradas com outras pessoas que já se foram.
Será que é aí que a gente morre de verdade? Quando nossas histórias se acabam, quando ninguém mais se lembra, quando ninguém mais sofre em busca delas?
Quanto tempo será que uma pessoa sobrevive nas memórias e nas saudades de alguém depois que morre?
Eu queria muito poder mantê-lo vivo.
Eu, velhinha, contando histórias do meu pai. De quando a gente jogava bola na rua, ou foi no estádio a primeira vez, de como ele adorava coxinhas e cerveja, de como a boca entortava mais para a esquerda quando ria, e como ele berrava alto quando ficava bravo. Mas na verdade, eu não sei nada disso. Eu não passei por nada disso. Eu não tenho nenhuma dessas lembranças, eu nunca vou poder recontar sua história, nunca vou poder ser alguém que não o deixará morrer novamente, ou de vez, para sempre.
Acho que essa vai ser pra sempre uma das maiores mágoas da minha vida, não ter podido conviver com o meu pai o mínimo para guardar isso comigo.
Eu tinha três anos. Com essa idade a gente não é capaz de lembrar verdadeiramente de nada. Apenas algumas coisas enroscadas que as pessoas te contam.
Vinte e cinco anos. É uma vida longa, uma morte longa.
Uma dor que corroi, um vazio que machuca, e uma vontade imensa de ter tido algo que nunca tive!
E, se depender de mim, ele só vai morrer de verdade, quando eu morrer também, porque até lá eu vou continuar inventando na minha cabeça suas histórias, seus trejeitos, o jeito que eu acho que ele era ou que eu gostaria que fosse.
Pra sempre.

Ahhhhh

Emocionante viu.
Quem diria que a fórmula publicidade + telefonia móvel + dia dos namorados me faria chorar? Mas chorei viu!

Sexta-feira, Junho 03, 2011

Esquisito

Difícil entender e, mais difícil ainda, assimilar porque abandonei o blog.
Às vezes penso que perdi o tesão pela escrita, outras vezes penso que minha vida anda sem graça e não merece posts, em outras que minha visão do mundo anda tão deficiente que não sou mais capaz de olhar pela minha janela e identificar momentos que merecem ser reproduzidos, contados, afirmados ou criados.
No fim, não sei se é nada disso ou tudo isso junto. Ou apenas um momento de desprendimento.
Há muitos meses, talvez ano, eu escrevi que era difícil postar algo no blog quando se está em um momento de introspecção. E isso eu reafirmo. Escrever, qualquer coisa que seja, por menos revelador que seja, sempre invade um pouco sua mente e alma, e às vezes o que se quer é resguardar. Acho que estou nessa fase. Resguardo. Balanço.
Este tem sido um ano esquisito. Nem bom, nem ruim. Esquisito.
Aconteceram coisas maravilhosas. Aconteceram coisas dolorosas.
Mas o saldo é que me sinto flutuando. Como se não estivesse dentro do meu corpo, dentro da minha vida, dentro das minhas escolhas. Parece que olho tudo de cima e, aqui em baixo, tudo vai passando, quase que num filme.
E já estamos em junho e isso é assustador!
Acho que é normal se sentir assim, não? Espero que sim.
Acho que é normal ter dúvidas das próprias escolhas, do rumo da vida, da nossa relação com as pessoas.
E eu estou numa fase tão, mas tão reservada, que não tenho nem vontade de discutir. Sim, eu, logo eu, não tenho vontade de discutir. Quer falar do governo, das florestas, da Copa, do estádio do Corinthians, dos rumos do jornalismo e da comunicação... Falem, falem, todos os blá blá blá que conhecemos. Eu não tenho vontade de interagir! Estou estafada de tudo isso.
Olho meu facebook e os comentários das pessoas e fico pensando se estamos condenados mesmo a viver esse mundo, com esses temas e essas abordagens.
Pela falta de objetivo, critério e evolução deste texto, dá-se para imaginar minha cabeça...
É toda essa confusão aí. De novo, nem para o bem, nem para o mal.
Apenas anda tudo muito esquisito.

Segunda-feira, Maio 30, 2011

Ariana

No auge dos meus 28 anos, preciso confessar que não gosto, não leio e não me atento aos signos. Mas, por acaso, assim como quem não quer nada, li essa descrição da mulher ariana no facebook. Estou embasbacada. Mesmo. Acho que tem tudo a ver...

Mulher de Áries?! Hummm....
Não sei. Ainda não consegui decidir se estar apaixonado por uma dessas mulheres é muito bom ou muito ruim. Como sempre, deve ser os dois... O fato é que essas daqui vivem tão bem sem um homem que se torna até constrangedor (pro cara, claro). A sorte é que as arianas tem uma necessidade natural de ter alguém que elas admirem. Acho que nem é essa a palavra. Elas precisam suspirar, perder o fôlego por alguém. Não se empolgue: se não tiver nenhum homem capaz de responder a isso, bem, ela não sentirá tanta falta dele assim. Até porque o que quer que ele saiba fazer, ela faz mais e melhor.
A coisa aqui é uma briga de galo. É ego pra todo lado, masculino e feminino em par de igualdade. Dá até medo de ser cavalheiro com uma ariana.Elas são donas do pedaço, aquele arrasta quarteirão sabe? Tem controle total sobre tudo que diz respeito a ela. São as mais propensas dentre os signos a propor o casamento no lugar do homem. Assusta um pouquinho. Mas ela é a mulher mais mulher do zodíaco, é de se compreender. Ariana tem a ver com força. Nada nela é 'mais ou menos'.
Para que ela te ame, ela precisa que você a orgulhe. Ela exige que você seja o príncipe, vá lá que não tão encantado, mas capaz de inspirar nela seu sentimento próprio de compartilhar o que é dela, de ser gentil e fazer o que estiver ao alcance dela por você. As mulheres de Áries querem ser dominadas por um braço forte, ser pegada de jeito por alguém a altura de sua força. Entretanto, e é interessante perceber isso, a ariana vive um eterno conflito de estar no controle dominando e também de querer ser dominada (Meu Deus, como será o sexo? Fico pensando).
É aquela mulher que é bendita entre os homens. Sabe qual é? Que tem mais amigos homens do que o normal? Pois então. E aí com certeza vai bater aquele ciúme. E ela simplesmente não admite ataque de ciúmes perto dela. Muito embora ela seja uma mulher ex-tre-ma-men-te possessiva, dona das mais incabíveis crises de ciúme. Isso siginifica: "Pode confiar em mim, mas em você eu não confio mes-mo!"
Acho que é tudo uma questão de dever e recompensa. Por exemplo: se você liga inadvertidamente dizendo que vai demorar pra chegar na casa dela por causa disso e daquilo, não se dê nem ao trabalho de chegar alguma hora porque ela vai estar lhe esperando assim como uma panela de óleo quente espera um pastel cru. No entanto, se você está com ela, conversa e a escuta, será recompensado com toda a suavidade que, pasmem, existe aos montes dentro dela.
Arianas são assim, como a chama de um fogo. Se você souber cuidar bem e entender o que tem que fazer, então ela te aquece como uma lareira. Mas se você não lhe der atenção, uma hora apaga. Ou, o que é pior, incendeia.
Todo cuidado é pouco.

Segunda-feira, Março 21, 2011

Eixo

Eixo é característica desejável para qualquer ser humano do ponto de vista psicológico. Para quem se arrisca em algum tipo de atividade física ou de arte corporal, como o ballet clássico, eixo passa a ser a base de tudo, sem eixo, você não é ninguém.
Acontece que, desde pequena, eu tenho sérios problemas de eixo. E isso fica claro quando me lembro que nunca, nunquinha, consegui jogar pião. Nenhuma vez sequer eu consegui jogar um pião que ficasse em pé, rodando, rodando e rodando.
O pião é brincadeira antiga das crianças. Já foi até encontrado nas escavações de Pompeia, cidade enterrada por um vulcão 5 séculos antes de Cristo. Ou seja, desde os tempos mais primórdios as pessoas têm boas relações com eixos e rodopios e eu não!
Fiz algumas pesquisas antes de escrever este post, para entender como o pião fica verticalmente lindo girando e porque eu não consigo fazer isso nas minhas piruetas.
A coisa toda é bem complexa. A wikipédia me explicou que o efeito giroscópico do pião vem de sua velocidade angular, perpendicular ao eixo, e que mantem-se em pé e girando por causa da inércia. Aos poucos, claro, ele perde velocidade, a gravidade fala mais alto e devido ao vetor peso, ele cai.

Se é complexo para aquele pedaço cônico de madeira, que mal pode inserir novos movimentos ao giro, imagina para mim, que tenho duas pernas, dois braços, 208 ossos, centenas de músculos e alguns quilos de gordura.
Para conseguir fazer uma [ou mais, muito mais] piruetas é preciso conseguir colocar o corpo em um eixo reto e encaixado, como numa linha que conecta a ponta do dedão que será o apoio, até a cabeça. Não bastasse isso, a outra perna está sempre tratando de abrilhantar uma posição graciosa, que pode ser em retiré [pézinho na altura do joelho], attitude [perna quase esticada, com leve dobra, que pode ser pra frente ou pra trás], estirada em degagé...
Isso tudo é pra dizer que se é difícil colocar um piãozinho quase sem variáveis para ficar em pé e rodando, imagina um corpo em movimento e cheio de posições.
Os giros estão quase se tornando um trauma na minha vida, pois é nítida minha falta de eixo. A parte boa é que já identifiquei que o problema está nas costas e nas asas. Sim, as asas, aquilo composto por omoplatas, costelas e escápulas. O encaixe "frouxo" destas três partes importantíssimas das minhas costas fazem com que eu nem sempre consiga fazer as lindas piruetas.
Claro, às vezes saem na sorte. Mas, como diz minha professora, ballet não é sorte, é técnica. Assim, eu preciso de técnica para ter eixo sempre e não de vez em quando.
Eixo, esta é minha busca em 2011!

Quarta-feira, Março 16, 2011

Ah, resiliência

Há algum tempo, escrevi um post irritado contra a resiliência impetrada por empresas. Na época, estava bem revoltada com o mau uso da palavra e do conceito, que grudou em executivos e profissionais de recursos humanos que passaram a usar a torto e a direito como um meio para pressionar funcionários e organizações a agüentar qualquer tipo de pancada na cabeça e continuar motivado, sorrindo e produzindo.

Ainda acho que o conceito vem sendo utilizado e exigido ao extremo, sem que se analise em que momentos realmente é preciso ser resiliente e a custa do que. Mas, diante de alguns acontecimentos, volto aqui para defender e estimular a resiliência.

O Japão é um país acostumado com as tragédias. Isso todo mundo sabe. O Japão também é um país extremamente inovador, trabalhador e eficiente. Isso também todo mundo sabe. E, alguém duvida que eles reconstroem tudo antes da gente preparar os estádios para a Copa no Brasil? Provavelmente ninguém. Isso sim é ser resiliente.

A cultura japonesa sempre foi voltada para o autoconhecimento e a introspecção. Espiritualmente desenvolvidos, os japoneses costumam sabiamente olhar pra dentro antes de julgar o que está fora, respeitam a sabedoria acima de tudo, principalmente a que vem dos mais velhos. Isso tudo é sinal de maturidade cultural.

Culturalmente maduros, com extremo acesso a educação e tecnologia de ponta, espiritualizados e introspectivos, o povo japonês é o melhor exemplo de resiliência que pode existir. Isso porque foram, por milênios, preparados para isso. Lembrando o conceito de resiliência, que vem da física, descreve uma matéria que, ao ser submetida a algum tipo de pressão, como um elástico esticado ou uma vara envergada, consegue voltar ao seu estado normal. Ou seja, aconteça o que acontecer, não se quebra e volta a ser o que era.

Do ponto de vista humano, ser resiliente significa suportar pressões, agressões, dificuldades do dia a dia e, com maturidade, gerenciar tudo isso sem “quebrar”, sem deprimir, sem adoecer. Fazendo uma comparação bem empírica e ordinária, pegue matérias feitas sobre o terremoto/tsunami/acidente nuclear no Japão e qualquer outra sobre enchentes, alagamentos ou desmoronamentos no Brasil. Lá do outro lado do mundo, as pessoas estão centradas e comedidas. Abaladas, claro, mas sem histeria, sem drama, sem esperneio. Os alojamentos estão organizados, as pessoas estão organizadas e elas sabem que o dia seguinte é momento para secar as lágrimas pelos mortos e pela destruição e começar a reconstruir tudo de novo, mais uma vez.

No Brasil é diferente. As pessoas esperneiam, berram, extravasam sua dor. Não que isso seja certo ou errado, é apenas um comparativo. Em vez de reconstruírem sua vida de uma forma melhor, apenas levantam as paredes ou secam os barracos na mesma margem de córrego em área de manancial, aguardando a próxima cheia. Os donativos arrecadados são roubados, extraviados. Os pequenos comerciantes aumentam em 700% o preço da água e de artigos de primeira necessidade para faturar em cima da desgraça. E a população, aflita, saqueia lojas, mesmo que para roubar televisões de plasma.

Certo ou errado, desespero justificado ou não, são dois exemplos completamente diferentes, e sim, me fazem acreditar que brasileiro tem muita dificuldade em ser socialmente maduro e culturalmente resiliente.

Na vida pessoal, as pessoas demonstram essa mesma falta de resiliência. Lidam com a dor, a rejeição, a mágoa ou a perda de formas extremistas. Isso pode ser falta de maturidade emocional ou até falta de experiência de vida. Tem gente que já nasce passando por situações realmente difíceis. Perdem pessoas queridas, por morte matada, morte morrida ou simplesmente por afastamento. Tem gente que precisa ser forte e sensato em diversas situações, porque outras pessoas dependem disso. Tem gente que cai, cai, cai e não cansa de levantar, pelo simples fato de ser otimista, de olhar pra frente. Todos nós precisamos de um pouco de resiliência. Não para ignorar a dor que sentimos, não para fingir força ou felicidade, mas para lidar com os obstáculos, as merdas e os tombos que a vida nos impõe, sem perder o brilho e a esperança que amanhã será um dia melhor, porque eu vou fazer dele um dia melhor.

Quinta-feira, Março 03, 2011

Como?

Como é possível a gente ter saudades de algo que nunca teve?

Meu Brasil brasileiro...

É isso ae... Estamos chegando!
Só espero não chegarmos lá engarrafados no trânsito, sem recursos e opções.

Eu não sei

Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei prá onde ir
Eu não sei porque moro ali
Eu não sei porque estou
Eu não sei prá onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei prá onde o mundo vai
Nesse breu vou sem rumo
Só sei que o mundo vai de lá pra cá
Andando por ali
Por acolá
Querendo ver o sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem
Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim
Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz.